sábado, 16 de agosto de 2014

Capitulo 3

- Já cheguei, almoças comigo? – perguntou-lhe o Tiago quando Núria atendeu o seu telefonema.
- Almoço sim. – respondeu Núria.
- Vou conhecer o teu namorado? – perguntou-lhe o irmão.
- Tiago…
- Vens ter comigo ao hotel e depois vamos almoçar?
- Sim, está ótimo para mim. – respondeu Núria calma.
Acabaram por desligar a chamada e Núria voltou ao seu trabalho.


Aquele lugar era completamente desconhecido para Núria entrou e avistou de imediato Tiago e quando este a viu sorriu e foi ter com ela. Com Tiago estava uma rapariga morena, com o cabelo encaracolado preto.
Os dois chegaram junto de Núria com um sorriso na cara. De imediato Tiago abraçou a irmã as saudades eram tantas…
- Dormiste de noite? Olha para esses olhos! – atirou Tiago.
- Dormi sim, não como gostaria de ter dormido mas dormi.
- Tens alguma coisa para me contar? – perguntou Tiago à espera de algo da parte da irmã.
- Tu é que deves ter algo para me contar.
Tiago agarrou a mão da namorada e puxou a mesma até ele, encostou os lábios à mão dela e sorriu.
- É a Matilde…a minha namorada. – disse Tiago sem pressas.
- Eu sou a Núria. – disse ela chegando junto de Matilde e cumprimentando-a com dois beijos.
- Matilde. – disse envergonhada – o teu irmão fala muito de ti e és ainda mais bonita do que ele descreveu.
Núria sorriu envergonhada, há muito tempo que esperava mais uma mulher naquela família
- Obrigada – agradeceu sorrindo – o Tiago nunca me falou de ti mas isso é normal, não é? – perguntou sorrindo – ele é muito reservado.
- Para o que quer. – atirou Matilde deixando a vergonha de lado.
- Agora é que disseste tudo. – disse Núria.
- É isso, juntem-se as duas contra mim! – falou Tiago de uma forma irónica.
- Sim, nós vamos dar-nos bem. – concluiu Núria.

- E como é a vida aqui em Londres? – perguntou Matilde a Núria enquanto almoçavam.
- É boa, eu gosto bastante até mas é diferente, foi difícil habituar mas agora é um sonho realizado.
- Voltar para Portugal é algo que gostavas? – voltou a perguntar numa espécie de questionário.
- Sim, eu gostava mas é aqui que me sinto bem, pelo menos por agora. – respondeu Núria sincera.
- Claro, é cá que ela tem os namorados todos. – gozou Tiago.
Os namorados todos, na verdade eram dois. Que coisa complicada de explicar.
- Tiago também não exageres, deve ser só um não é? – falou Matilde na sua inocência.
- É – respondeu Núria um pouco atrapalhada – eu volto já – avisou Núria levantando-se da mesa.
- Acho que intimidámos a tua irmã com esta conversa. – disse Matilde.
- Ela é assim…estranha.
- Não fales assim da Núria. – falou Matilde colocando a sua mão sobre a de Tiago. – afinal se ela é estranha tem a quem sair, tanto tu como o João são…estranhos – disse usando o mesmo tom que Tiago tinha usado há pouco.
Foi o toque do telemóvel de Núria que os despertou, Tiago pegou na mala da irmã e retirou de lá o telemóvel.
- Atendo? – perguntou esperando o consentimento da namorada.
- Não sei Tiago, se for um rapaz é melhor não. É a privacidade da tua irmã.
- Oscar – disse lendo o nome que aparecia no visor do telemóvel – eu vou atender.
- Tiago…eu acho que é melhor…
Matilde não teve tempo de terminar a frase, Tiago já estava com o telemóvel da irmã junto ao ouvido.
- Oi meu amor.
De todo não era o que Tiago esperava ouvir. Ficou em silêncio. Falar? Podia correr mal.
Núria apareceu e voltou-se a sentar àquela mesa. Tiago olhava para ela com o telemóvel na mão. Quando ela se apercebeu que era o seu de imediato tirou-o das mãos de Tiago e tornou a levantar-se da mesa afastando-se um pouco. Oscar claro, quem mais poderia ser àquela hora?
- Nuri? – ouviu aquela voz e sabia que para Oscar aquilo estava a ser confuso.
- Estou aqui…agora. – assegurou-lhe com uma voz doce.
- Nós…precisamos de falar Núria…- disse com uma voz estranha. O assunto…provavelmente sério.


- Que se passou? – perguntou quando chegou perto de Oscar.
Deixou o almoço com Tiago e Matilde a meio, o que importava agora ali era só e apenas Oscar. O que se teria passado? Será que queria acabar tudo? Eden havia descoberto? Milhares de perguntas invadiam a cabeça de Núria e aquele suspense todo que estava a fazer ainda a deixava mais nervosa.
- Oscar fala por favor! – implorou.
- A Lu…ela está grávida.
Choque? Não, não era de todo um choque. Núria estava apenas espantada, não contava com aquilo nos próximos tempos mas a verdade…a verdade é que aquele relacionamento com Oscar já devia ter acabado há muito tempo. A chegada daquela criança era só mais um motivo para terminar com tudo aquilo.
- E essa criança vem em boa hora. – acabou por falar ainda um pouco perdida nos seus pensamentos.
- O que é que cê está dizendo Nuri?
- Estou a dizer que isto…isto que nós temos tem que acabar.
- Acabar? – perguntou Oscar não percebendo nada daquela conversa.
- Sim, sim. – Núria andava de um lado para o outro sem saber bem o que pensar – sabes? – olhou para Oscar encarando-o – isto nunca devia ter começado! O que é que ia nas nossas cabeças? Tu és…tu! – a voz dela estava alternada, falava de uma maneira completamente descontrolada – tens namorada e agora vais ter um filho! – Núria parou, sentou-se e respirou fundo. Foi como que morresse ali, respirou fundo antes de continuar – Vais ter um filho, volto a repetir, vais construir uma família e tudo vai mudar. Está na hora de tudo isto acabar de acordarmos para a vida! O teu futuro é ao lado da Ludmila com o vosso filho e o meu é junto ao Eden, com o Yannis e o Leo.
- É assim? Tudo vai acabar assim deste jeito?
- O que é que queres?
- Você. – respondeu Oscar rodeando a cintura de Núria sem pedir qualquer tipo de permissão.
- Não, não, não pode ser. – largou-se dele e olhou-o.
- Pode, claro que pode. Você é que não quer.
- Quero, claro que quero! Na verdade não há nada que eu queira mais mas…não pode ser. É errado, além de estarmos a enganar os nossos companheiros, pior do que isso estamos a enganar-nos a nós mesmos. Andamos nisto há um mês. Um mês bom, não vou dizer que não mas Oscar…acho que devia seguir cada um com a sua vida.
- Nuri… - queria poder dizer algo mas Oscar não sabia como fazer Núria mudar de ideias. Teimosa e decidida são as coisas que definem melhor Núria.
- Não há volta a dar. – pegou nas suas coisas e encaminhou-se para a porta – e nós já devíamos ter acabado isto há muito tempo.
- Se aconteceu…era porque estava destinada para acontecer.
- Não Oscar…aconteceu porque a ideia de estarmos com outra pessoa fora da nossa rotina nos agradou mas é um erro…foi um erro.
- Cê vai dizer que não gosta de mim?
- Estaria a mentir-te se dissesse isso. Tenho um carinho enorme por ti, fazes-me tão bem. Fazes-me voltar aos tempos do secundário, ser a adolescente que era e cometer todas as loucuras sem pensar nas consequências mas a verdade – parou por momentos de falar e ficou por uns segundos a olhar Oscar – a verdade é que nenhum de nós é adolescente. Vais ser pai, tens a Ludmila, eu tenho o Eden que tem dois filhos. Ambos trabalhamos…e o tempo de ser adolescente foi lá atrás.
- Núria…não faz isso. Não desse jeito.
- Não há outro jeito de se fazer isto… - Nuria abriu a porta, preparando-se para sair – havemos de nos ver por aí…mas acabou Oscar.


Trabalhar da parte da tarde não estava nos seus planos, a cabeça de Núria estava a mil. O que pensar? O que fazer? Tinha apenas uma certeza…esta mentira durava há tempo de mais. Contar a Eden? Sim, teria que o fazer, mesmo que isso fosse acabar o relacionamento entre eles (que era o mais provável), Núria tinha que lhe contar, que se libertar daquele peso.
Foi até casa de Eden, este ainda estava no treino. Tinha a tarde por sua conta. Há pouco tinha ligado para a clinica e como a confiança com a médica veterinária já era alguma bastou-lhe dizer que não se sentia bem para voltar ao trabalho à tarde.
Tiago…Tiago e Matilde eram outro problema. Tinha-os deixado a meio do almoço sem dizer o que ia fazer em concreto. Devia-lhes uma explicação…mas eram demasiadas coisas. O seu irmão com a namorada em Londres, o relacionamento com o Eden…tinha que contar ao seu irmão, isto se ainda existisse no fim da conversa que pretendia ter com ele.
Tantos pensamentos. Sentia-se completamente desamparada como se a algum momento pudesse cair e não tivesse ninguém para lhe amparar a queda.
Decidiu ir para a cozinha, talvez preparar o jantar. Cozinhar era sem dúvida das poucas coisas que a acalmava.
- O que é que estás a fazer? – aquela voz de Eden atrás de si assustou-a, tremeu por momentos. Olhou para ele estava com cara de caso.
- Bem…- pela primeira vez sentia-se de certo modo intimidada a falar com Eden – estou a lavar alface, laitue na tua língua materna.
- Mas o que é que estás aqui a fazer? Devias estar a trabalhar, não?
- Sim, devia mas não estava com cabeça para isso.
- Passa-se alguma coisa?
- Não, apenas…nós precisamos de falar! – aquilo saiu-lhe, assim, sem programar, sem pensar.
- Concordo. – a cara estranha de Eden ainda assustou mais Núria. Também ele queria falar com ela, será que sabia?
- Mas…aconteceu alguma coisa? – Núria estava com medo de avançar a conversa…se Eden soubesse ou desconfiasse de alguma coisa, de certo lhe iria dizer. Ela não encontrava as palavras certas para dizer ao seu namorado que se tinha envolvido no último mês com Oscar.
- Este mês que passou…Núria, eu tenho dado pouca atenção a nós. A ti principalmente.
- Eden…
- Deixa-me continuar… - Eden agarrou na mão de Núria, acariciando-a com o seu dedo. Percebia-se que ele estava tenso e com um certo receio de falar – No inicio era com os treinos, depois passou a ser o teu trabalho a aumentar e…parece que andamos mais afastados. Não quero dizer que a culpa é tua, ou minha…porque a culpa é mesmo de tudo…
- Eden, a sério eu preciso de falar antes que continues.
- Porque?
- Porque…nada disso é culpa tua. É tudo culpa minha…eu bem…eu envolvi-me com uma pessoa. Nós temos estado juntos…várias vezes, e criámos alguma cumplicidade…bastante até. Mas agora…agora eu acabei isto com ele, não conseguia continuar…sabendo que te iria magoar. Não poderia continuar com aquilo…eu estava a trair-te e…não o mereces. Tens sido bom demais para mim para te fazer algo assim… – Núria falava como se as palavras lhe queimassem a garganta. Sentia-se mal ao estar a dizer tudo a Eden de uma vez só, mas sentia que só assim o conseguiria fazer – Eden, eu não queria ter-te traído…o que eu sinto por ti mantêm-se intacto. Intacto mesmo. Eu sei que te estou a desiludir e que vai tudo mudar…mas eu precisava mesmo de te contar.
Eden mantinha-se em silêncio. Olhava para Núria, agarrando a mão dela esperando que, também a ele, lhe surgisse a coragem para falar.
- Sinceramente…eu não esperava isso…juro que não estava mesmo nada à espera de chegar a casa e…isto – contrariamente ao que Núria esperava, o tom de voz de Eden era calmo e tranquilo. Se bem que estava nervoso, percebia-se isso – na verdade…bom se calhar é melhor ser directo como foste comigo. Eu cedi…há uns tempos, com a Natacha – Eden viu o espanto estampado na cara de Núria. Tal como ela, também Eden havia tido um escape com a mãe dos seus filhos – Nu… - Núria notava sempre naquela diferença: Eden tratava-a por Nu e Oscar por Nuri…e os dois faziam com que ela se sentisse especial, cada um à sua maneira – Foi uma vez, apenas e só uma vez. Acho que foram as saudades, ou então a sedução…mas foi só uma vez. Eu não me sentiria bem em continuá-lo…se bem que não a impedi de investir em mim. O que é que fazemos agora?
Tanto um como o outro não sabiam uma resposta concreta para aquela pergunta.
- Eu não sei Eden…se calhar…dávamos um tempo. Um tempo…sim.
- Um tempo? Sim…mas Nu…eu, eu não quero que isto nos separe definitivamente. Eu…eu gosto tanto de ti.
 - Acredita, eu gosto imenso de ti também. Mas erramos os dois, esta casa é tua…eu saiu de cá por uns tempos para percebermos…e se nos separarmos é porque…acabou mesmo.
- Eu não quero que acabe.
- Nem eu, Eden…nem eu – Nuria encostou a sua cabeça junto do peito de Eden que a abraçou.

Núria mudou-se para casa das suas amigas: a Eva e Siena. Seria o melhor a fazer. Estar longe de Eden e de Oscar para perceber o que realmente sentia por cada um. E, na verdade, parecia que o afastamento dos dois ainda lhe trazia mais dúvidas.
Quer estar com Eden, estar com o seu namorado, a pessoa que adormecia e acordava com ela todos os dias. O rapaz que a tratava bem, que a fazia sentir a rainha daquela casa. Sentia saudades dos beijos dele, dos abraços, das festinhas, dos filhos dele…como tinha saudades de Yannis e Léo.
E quer estar com Oscar…Oscar fazia-a sentir-se especial também. Mas de forma diferente de Eden. Oscar mimava-a com palavras, com toques, com sorrisos e o facto de andarem escondidos e às escondidas dava a Núria uma sensação de que estava a viver outra vida, uma outra rotina, um outro amor.
Ela pode dizer que os quer aos dois…que gosta dos dois de formas distintas, mas ambas intensas. Pode dizer que está confusa e que não sabe o que fazer…mas quer os dois na sua vida.